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corrida para salvar uma vida

Tarde de sábado da semana passada, em Jerusalém. Um jovem médico se aproxima do Muro das Lamentações e toca uma das rochas que formam o paredão sagrado de 19 metros de altura.

Adriano Taniguchi, 28 anos, gira o corpo e se afasta do tradicional ponto de orações sem esperar nenhuma graça para si próprio. Sua missão em solo israelense é salvar uma paciente que aguarda seu retorno a 13,7 mil quilômetros de distância, no Hospital de Clínicas de Porto Alegre.

Enquanto caminha pela praça repleta de judeus e não-judeus como ele, o residente do Serviço de Hematologia do Clínicas esboça um sorriso:

– Vai dar tudo certo – garante, enquanto volta para seu hotel em Tel-Aviv.

Para que a previsão se confirme, Taniguchi deve aguardar a coleta de células-tronco de uma jovem israelense que será realizada no dia seguinte e levar o material em uma bolsa refrigerada entre 8°C e 12°C até a Capital, em menos de 48 horas. Se o limite de tempo for ultrapassado, as células presentes no sangue começam a morrer, e minguam as chances de sucesso do transplante programado para restaurar a medula óssea da dona de casa debilitada por uma leucemia. Pelas normas internacionais de doações, as duas mulheres devem permanecer anônimas.

A busca do líquido é a fase mais tensa de um processo iniciado quatro meses antes, quando uma rede informatizada que uniu Brasil, Israel e um centro de coordenação de registros de doadores nos Estados Unidos localizou, em Jerusalém, uma voluntária compatível com a paciente internada em Porto Alegre. Para o sangue chegar em boas condições ao Rio Grande do Sul, será preciso superar desafios como imprevistos clínicos, mudanças de vôo de última hora e a burocracia de três aeroportos internacionais para circular com o material biológico sem passar por máquinas de Raio X – capazes de provocar mutações nas células que inviabilizariam o transplante.

As barreiras logísticas e o custo aproximado de R$ 60 mil da operação internacional paga pelo Sistema Único de Saúde (SUS) poderiam ser evitados se houvesse no Brasil um maior número de doadores de células-tronco, o que aumentaria as chances de se encontrar um doador compatível em solo nacional. Atualmente, há 525 mil voluntários cadastrados no país – um avanço considerável em relação aos 40 mil inscritos de cinco anos atrás. Uma comparação com Israel mostra o quanto a solidariedade ainda pode avançar no país.

Enquanto os 309 mil doadores contabilizados pelo centro de registros israelense Ezer Mizion representam 4,5 mil inscritos para cada 100 mil habitantes daquele país, os brasileiros somam 286 – 15 vezes menos, proporcionalmente.

Isso faz com que ao redor de 20% das infusões realizadas no Brasil entre não-aparentados ainda dependam de buscas no Exterior, segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca). A viagem realizada por Taniguchi é uma dessas incursões internacionais fundamentais para atender à demanda de vítimas de leucemia, e a segunda realizada pelo Clínicas – onde cerca de 90 pessoas continuam aguardando por um doador. Em todo o país, há uma fila de 900 doentes à espera de um voluntário compatível, com uma chance média de um para cem mil de encontrá-lo.

De quinta-feira a terça-feira passada, Zero Hora seguiu viagem com o hematologista e testemunhou do início ao fim a corrida contra o tempo de médicos ligados ao sistema público de saúde para salvar uma vida ameaçada pelo câncer.

*O repórter viajou a convite do Maimônides Day Hospital

(marcelo.gonzatto@zerohora.com.br)

 

“Quem salva uma pessoa, salva o mundo”
48 horas para o transplante

No começo da manhã de domingo, em Jerusalém, uma jovem embarca em um carro acompanhada pela mãe. Ela ruma para o Schneider Childrens Medical Center, localizado na cidade próxima de Petah Tiqwa. Durante cerca de quatro horas, deverá doar sangue suficiente para a realização do transplante que poderá fazer a diferença entre a vida e a morte para a paciente brasileira. Se tudo corresse bem, o médico poderia buscar o material à tarde e iniciar a viagem de volta ainda no domingo. Mas não é o que ocorre.

O primeiro problema encontrado pela equipe médica israelense é inserir a agulha no braço direito da jovem. Como o acesso à veia está difícil, a solução é realizar uma incisão no pulso. Calmamente, a estudante universitária se acomoda em um dos leitos do quarto 136, localizado no sétimo andar do hospital. Quando o sangue começa a pingar lentamente, a mãe, com ar orgulhoso, repousa a mão sobre o ombro da filha.

– Temos uma frase na tradição judaica: “Quem salva uma pessoa, salva o mundo” – explica.

A garota confirma o entusiasmo da mãe com a possibilidade de ajudar uma desconhecida a milhares de quilômetros de distância.

– Ela contou para todo mundo que eu faria essa doação – afirma, referindo-se à mãe.

Em seguida, surge outro entrave: a máquina que coleta as células-tronco apresenta uma falha e precisa ser substituída. Mãe e filha acabam passando o dia inteiro no hospital – de onde saem somente às 18h30min. De seu quarto em Tel-Aviv, Adriano Taniguchi liga para o centro médico e ouve uma notícia preocupante: a quantidade de células-tronco obtida durante a coleta não foi suficiente para o transplante.

Será necessária outra sessão no dia seguinte. O problema é que, se a doação não for concluída até o começo da tarde de segunda-feira, Taniguchi só conseguirá vôo para o Brasil na manhã de terça – e o sangue obtido na primeira coleta estará prestes a completar as fatídicas 48 horas. O residente precisa agir por conta própria: consegue transferir sua passagem aérea para as 17h30min do dia seguinte. Faz ligações para o Brasil de seu próprio telefone celular em busca de orientações.

Em uma demonstração da complexa burocracia que envolve o transporte desse tipo de material, também tem de ligar para o centro coordenador nos Estados Unidos para que autoridades de saúde enviem novos papéis para serem apresentados no aeroporto de Paris, já que o dia da viagem mudou, e os documentos anteriores perderam a validade. O centro norte-americano promete enviar as novas liberações, por fax, diretamente para o Aeroporto Internacional Charles de Gaulle.

Taniguchi decide ainda reservar outro vôo para mais tarde, caso a coleta não fique pronta a tempo. Circula pelas ruas de Tel-Aviv até achar uma agência de viagens ainda aberta, mas não há outros vôos disponíveis. A única solução será esperar pela retirada do material e correr para o aeroporto.

“Doutor, eu quero morrer”
30 horas para o transplante

Na manhã de segunda-feira, embora o procedimento padrão seja aguardar pelo telefonema da equipe do hospital israelense avisando que o material está pronto, Taniguchi decide deixar o hotel com todas as malas e seguir de táxi para Petah Tiqwa, a 14 quilômetros.

– Estou um pouco ansioso – justifica, pelo telefone, para a coordenadora de doações do Ezer Mizion, Nira Shriki.

Ela procura tranqüilizá-lo e garante que o hospital fará o necessário para garantir o sucesso da operação Jerusalém-Porto Alegre. A angústia do hematologista, porém, é alimentada por tristes lembranças do que pode ocorrer quando uma doação não chega a tempo. Em março, um pequeno paciente de apenas cinco anos lutava contra uma leucemia e enfrentava bravamente os vômitos provocados pela pesada quimioterapia, as sucessivas infecções e a incontrolável dor nos ossos por todo o corpo.

– Ele sempre fazia questão de tomar todos os remédios e jamais deixou de brincar. Ríamos muito juntos. As crianças me ensinaram essa lição, sempre aproveitar o tempo da melhor maneira possível – relembra.

Quando foi localizado um doador compatível nos Estados Unidos, a família e o médico se encheram de esperança. O tempo necessário para a realização de exames e procedimentos burocráticos, porém, se estendeu além das forças do paciente. Certo dia, Taniguchi ouviu do menino de cinco anos uma curta frase que jamais esquecerá:

– Doutor, eu quero morrer.

Acabou morrendo aninhado no colo da mãe, pouco depois de o pai chegar ao hospital para vê-lo.

– Isso abala qualquer um. O que compensa é que atuo em uma das áreas mais resolutivas da Medicina. Conseguimos salvar 70% das crianças doentes – vibra o médico.

Por isso, Taniguchi ruma para o hospital de Petah Tiqwa disposto a tudo para não falhar em sua missão. Enquanto a doadora se submete à segunda e definitiva coleta, ele espera sentado a uma das mesas do refeitório do estabelecimento, rodeado por suas malas e sacolas. Em uma delas, leva atílios, baralhos e alguns outros apetrechos utilizados em sua segunda profissão: a de mágico. Além de utilizar suas habilidades para divertir os pequenos pacientes e colegas do Clínicas, o médico é um dos mais requisitados ilusionistas do Estado para eventos corporativos.

– Ganho mais em meia-hora de apresentação do que em alguns plantões – brinca.

Um dos maiores segredos dos números, segundo ele, é fazer o espectador acreditar que a mágica está sendo realizada em um determinado momento, quando, na verdade, ocorreu bem antes. Horas mais tarde, a máxima do ilusionismo também poderia ser aplicada à Medicina.

“Você precisa correr para o aeroporto”
24 horas para o transplante

No começo da tarde de segunda-feira, Taniguchi espera o relógio bater 14h – horário prometido para a entrega do material. Com apenas 15 minutos de atraso, ele é chamado ao laboratório para que três bolsas de sangue sejam colocadas na sua mala térmica. Uma das médicas olha para o relógio, pergunta qual o horário do vôo e sentencia, com ar grave:

– Você precisa correr para o aeroporto agora.

A pressa é justificada. Mesmo sem atraso de vôo no trajeto de Tel-Aviv a Porto Alegre, a viagem deverá levar cerca de 24 horas – o tempo disponível para a realização do transplante. Perder o avião seria um desastre.

O médico dispõe de três horas até a partida do vôo da Air France, marcada para as 17h30min. Antes disso, porém, deve passar pela rigorosa segurança aeroportuária de Israel. Além de apresentar passaporte e a documentação referente ao material biológico, para embarcar com a bolsa sem passá-la pelo Raio X, o médico enfrenta uma entrevista de uma hora com agentes de segurança.

– Pedimos a sua compreensão, esse é um procedimento necessário para liberá-lo do Raio X – diz um deles.

Dois agentes questionam e conferem os mínimos detalhes sobre a identidade e o trabalho do hematologista: quando se formou, porque foi escolhido para a viagem, por que trocou a data do vôo de volta. Ao completar o trabalho de verificação, uma jovem funcionária abandona rapidamente o protocolo:

– Espero que dê tudo certo no Brasil.

Em Porto Alegre, no quarto 571 do Hospital de Clínicas, a paciente aguarda ansiosamente a chegada de Taniguchi. Em uma mesa ao lado de sua cama, uma foto da filha de nove anos ajuda a enfrentar a angústia da última noite antes do transplante. A mãe e o marido da dona de casa, que mora no município de Pato Bragado (PR), fazem companhia a ela enquanto, ainda do outro lado do Atlântico, o médico residente inicia a última etapa da viagem.

O cansaço do médico aumenta
12 horas para o transplante

Enquanto sobrevoa o Mediterrâneo a bordo do vôo 1621 da Air France, o residente se pergunta se enfrentará transtornos para fazer a conexão no Charles de Gaulle rumo ao Brasil. O aeroporto parisiense mantém um rígido controle sobre a documentação referente ao transporte de órgãos e sangue, e ele terá menos de duas horas para vencer a burocracia e embarcar em direção ao Brasil.

Em solo, diante da máquina de Raio X, apresenta-se e puxa os papéis de autorização. Teme que o fax enviado dos EUA com a retificação da data da viagem não tenha sido repassado aos agentes de segurança, mas, para sua surpresa, é liberado em pouco mais de 15 minutos.

– Apresentei os papéis com a data de ontem mesmo, e ninguém me perguntou nada – vibra, enquanto se dirige para um rápido passeio pelo free shop. A sensação de que a missão está perto do fim se intensifica.

O avião para o Brasil parte com um ligeiro atraso. A cada minuto, a distância entre o sangue depositado na bolsa refrigerada de Taniguchi e a ansiosa receptora diminui. O cansaço do médico aumenta. Ao chegar em São Paulo, toma um banho no aeroporto e troca a calça e a camisa de mangas curtas por terno e gravata para dar à chegada em Porto Alegre a solenidade merecida.

Devido à longa duração da viagem desde Paris, os sacos com um gel especial que são congelados para manter a bolsa sob baixa temperatura estão derretendo. Na sala da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), os funcionários renovam o material. Antes de se despedir, um deles não resiste e deixa escapar aquela que deve ser a piada predileta dos agentes de saúde em situações semelhantes:

– Não vai esquecer de passar pelo Raio X, hein?

A risada na sala é geral. Quando o avião decola do Aeroporto de Guarulhos, no começo da tarde, faltam cerca de quatro horas para que a infusão das células-tronco seja efetuada.

O vôo chega
0 hora para o transplante

Às 15h5min, o último vôo do périplo de Adriano Taniguchi pelo mundo chega ao destino. Para não perder tempo, o residente sequer desembarca com os outros passageiros. Por uma escada lateral, desce sobre a pista e embarca em uma ambulância cedida pelo Maimônides Day Hospital, da Capital.

Dentro dela, o aguardam as médicas hematologistas do Hospital de Clínicas Liane Daudt e Alessandra Paz. A equipe chega ao hospital, onde a paciente vinha se submetendo à quimioterapia para eliminar as células doentes da medula óssea e dar espaço à nova que deverá se formar a partir da doação de células-tronco de Israel.

Taniguchi, que jamais havia encontrado a dona de casa, entra em seu quarto para cumprimentá-la enquanto as bolsas de sangue são preparadas para a infusão. Discreto, aperta a mão da paciente e se retira. O marido, sentado em uma cadeira, pergunta para outra médica:

– É esse?

Ao ouvir a resposta, faz um aceno de agradecimento ao jovem doutor. A dona de casa tenta falar, agradecer, mas começa a chorar. Uma hora antes do prazo, começa o transplante.

Deitada na cama depois de padecer por quatro anos nas garras da leucemia, se submeter a sucessivas quimioterapias, sofrer sangramentos e dores, a dona de casa fixa os olhos na bolsa plástica e nas gotas que caem lentamente, como se à espera de que algo acontecesse.

A dona de casa ainda não havia percebido, mas, como ensinou o médico e ilusionista Adriano Taniguchi, a mágica já estava feita.

5 comentários

  1. Muito legal a matéria! Parabéns ao Adri pelo belo trabalho!


  2. muito lindo, lella!


  3. Esta historia que e realidade e digna de ser lida por por todo mundo porque e um testemunho de uma grandeza enorme de solidariedade louvo e admiro todas as pessoas que transmitei a palavra do Senhor

    Bem Hajam


  4. Se todos fossem como este Adriano, com certeza teriamos pcts curados… Conheço seu trabalho e cuido com maior carinho e atenção dos seus pcts e sei que podemos sempre contar com este grande médico..


  5. doutor adriano que esta cuidando de min e tratando minha leucemia , eu confio muito nele ! admiro mt ele , esta sempre dando o seu melhor para salvar vidas ! PARABÉMS ADRIANO



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